Conforme esclarece Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, há um comportamento que famílias de idosos com demência frequentemente descrevem com mistura de perplexidade e preocupação: o apego intenso e aparentemente desproporcional a um objeto específico, seja uma bolsa antiga, um cobertor desgastado, uma boneca ou uma fotografia, que o idoso carrega consigo constantemente e pela qual demonstra angústia intensa quando não consegue encontrar.
Esse comportamento, que pode parecer excentricidade ou regressão infantil para quem não compreende sua origem, tem explicação neurológica precisa e exige uma abordagem clínica e familiar específica. Neste guia, abordaremos o que está por trás desse apego e o que realmente ajuda nessa situação.
Por que o idoso com demência desenvolve apego a objetos específicos?
O apego a objetos concretos e tangíveis é uma resposta adaptativa do cérebro que está perdendo sua capacidade de manter representações abstratas estáveis. À medida que a demência compromete a memória, a orientação temporal e o senso de identidade, o idoso passa a depender cada vez mais de âncoras concretas no ambiente para manter uma sensação de continuidade e de segurança. Um objeto familiar, especialmente aquele associado a memórias afetivas intensas ou a períodos de maior segurança emocional, funciona como uma âncora sensorial que o cérebro utiliza para compensar a instabilidade interna produzida pelo declínio cognitivo.
Como detalha Yuri Silva Portela, esse mecanismo é análogo ao que ocorre em crianças pequenas com objetos transicionais, como cobertores e brinquedos preferidos: o objeto não tem valor intrínseco, mas tem valor funcional como regulador emocional em momentos de ansiedade ou insegurança. No idoso com demência, o objeto predileto frequentemente é algo que pertenceu a uma pessoa amada já falecida, que foi usado em um período de vida particularmente significativo ou que tem uma textura, um cheiro ou uma aparência que ativa memórias sensoriais preservadas.
Como a família deve reagir diante desse comportamento?
A reação mais comum das famílias diante do apego excessivo a objetos é tentar convencer o idoso de que o objeto não é tão importante, escondê-lo discretamente para ver se o idoso esquece, ou substituí-lo. Essas abordagens, além de ineficazes, tendem a produzir aumento da ansiedade e da agitação do idoso, que percebe a ameaça à sua âncora de segurança sem conseguir verbalizar o que está sentindo.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, a abordagem mais eficaz é exatamente oposta: garantir que o objeto esteja sempre disponível e acessível, incluí-lo naturalmente na rotina do idoso e nunca usá-lo como moeda de troca ou de controle comportamental. Se o objeto se perder ou se deteriorar, ter uma réplica disponível ou um substituto com características sensoriais similares pode reduzir significativamente o impacto da perda.
Quando o apego a objetos indica algo além da demência
Embora o apego excessivo a objetos seja mais frequente em idosos com demência, ele pode ocorrer também em idosos sem comprometimento cognitivo significativo como manifestação de ansiedade, luto não elaborado ou isolamento social grave. O idoso que desenvolve apego intenso a um objeto pertencente a um cônjuge falecido, por exemplo, pode estar utilizando esse apego como forma de manter a conexão simbólica com a pessoa perdida em um processo de luto que ainda não encontrou outros canais de elaboração.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, distinguir o apego como sintoma de demência do apego como manifestação de luto ou ansiedade tem implicações práticas para a abordagem terapêutica. No primeiro caso, a intervenção é principalmente de suporte e adaptação ambiental. Já no segundo, o encaminhamento para acompanhamento psicológico pode oferecer ao idoso ferramentas para elaborar o que está por trás do apego e encontrar formas mais amplas de conexão com o que perdeu.
O que esse comportamento ensina sobre cuidado e presença?
O apego do idoso a um objeto específico é, em última instância, uma mensagem sobre necessidade de segurança, continuidade e conexão que o cérebro encontrou uma forma concreta de expressar. Sendo assim, compreender essa mensagem em vez de combatê-la transforma a abordagem familiar de confronto em cuidado genuíno.
Sob o entendimento de Yuri Silva Portela, o objeto que o idoso segura com tanto cuidado não é apenas uma coisa: é a forma que ele encontrou de dizer que ainda precisa de algo para se agarrar em um mundo que está ficando cada vez mais difícil de compreender. Respeitar isso é também uma forma de amor que a família pode oferecer mesmo quando não entende completamente o que está acontecendo.